sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Zé da Fome

Eu tenho fome.
Sonho manchar-me num banho de cores ardentes, de pétalas em infusão na mais crua e seca cachaça. Eu quero mastigar, sorver, tragar e colorir minha insônia com flores volúveis. Eu quero degustar.
Tudo.
Imóvel, olhos estrábicos, a fumaça do tal cigarro flui através dos dedos, envolve os poros e o corpo, rasga a roupa e, por fim, veste-me sua seda branca, costurada com a saliva e a paciência de um pôr-do-sol no inverno.
Minha essência é a fragrância do mofo. Em fogo de chão eu fervo-me!
Quero gozar com gente tão diversa. Tantas coisas sórdidas me aprazem.
Tantas coisas.
Eles dizem-me: - Não!
Mas porque envolver essas conversas em banhos mornos? Tantas coisas queria ouvir.
Tantas coisas.
Pobres? Ébrias? Óbvias?
I-ne-vi-tá-vel!
De que importa, desde que possa engoli-las, mesmo queimando a garganta como o mais barato whiskey!
Encolhidas e afoitas, no mais longínquo canto, as coisas apodrecem! Sempre!
Eu quero explodir tudo! Elas querem que as explodam. As panelas já não me cozinham como você me cozinha. Eu não quero banho-maria! Eu fervo!
Eu tenho fome.

Nenhum comentário:

Postar um comentário