Já passa das 9 e os ponteiros do relógio insistem em girar. Algo estranho me domina. Algo como morder-se em martírio pelo seu segundo de atraso. Toca o telefone e corro juntar meus cacos, mas basta um “alô” e tudo novamente despenca.
Enfim sós e agora levemente toco-a. A mão áspera percorre a pele, macia e luminosa como o alvor de um domingo de verão. Vem à tona um desejo de arrancar-lhe gritos
e desnudar-lhe a alma
e reger seus gemidos
e roubar seus cabelos
seus lábios e sua calma e guardá-los no fundo da gaveta da memória.
Pois que se vão às roupas.
Nossos corpos agora se vestem um no outro.
Já não basta tocá-la.
Nada basta para saciar a sede da carne!
Um querendo entrar no outro
Um querendo ter e ser o outro
Sem preço e sem vergonha.
E nus, envoltos no mundo paralelo da cama, cada centímetro torna-se infindo e, de repente, ouve-se o mais belo dos suspiros. As bocas, então, lavam-se na fonte da mais profunda calma e juntos, por fim, um torna-se o outro!
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