De que adianta,
comprar prazer
e pagar pra ser o que não se é?
comprar amor,
quando não existe amor-próprio,
e pagar pra poder ter fé?
De que adianta,
foder com a vida,
e não satisfazer a quem se ama?
fitar os outros,
e não saber a cor dos próprios olhos?
De que adianta,
cuspir de nojo
e limpar as feridas com a própria saliva?
beber do cocho
e marcar a ferro seu gado?
fugir de casa,
quando o problema está no peito?
De que adianta?
ser cópia,
se, no final, o único é a única coisa que fica?
adiantar o relógio
e viver em um pleno e cego atraso?
sair perfumado
e ter um lar sujo e fétido?
ver o Luar
e não sentir o brilho da esposa?
ser moça
e gozar sempre sozinha?
tocar a superfície,
se o poder está âmago?
De que adianta?
cobrar do outro
e deitar despreocupado na lama?
e estar em dívida consigo mesmo?
ser chefe de restaurante
e deixar o arroz queimar em casa?
curar o peito,
se tudo à sua volta está doente?
De que adianta?
fingir-se de santo,
se o Éden te espera a cada esquina?
fingir-se de manco,
quando podes pular de salto?
fingir-se de herói,
se a heroína te dita as regras?
afogar-se na piscina,
se podes beber, de um gole, o mar?
De que adianta?
recostar,
se podes contestar?
deprimir,
se podes excitar?
De que adianta um mundo à sua frente,
se há um buraco ao seu lado?