segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Máquina de Carne

Lembro-me do dia em que
a máquina olhou-me,
tão viva parecia,
e quente
e colorida
e sequiosa,
que me ofuscou!
Senti-me esmagado
pelos olhos que não mais são duros
nem secos
nem fundos
nem inanes...

Como pode tão deserta alma
amedrontar-me?
Pode um robô curar-se?
Pode um robô curar-me?

Soa o alarme:

NÃO! NÃO! NÃO!

Oh! Tórrida contradição
um autômato não adoece!
Como sarar algo
que de tão implícito explode?

ELE sara,
mas de robô não passa!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Poema de Natal ou Tudo sempre igual

Os grandes nos dizem que ele existe,
mas Papai Noel ainda engana as crianças.
Nós continuamos comendo pasto,
eles seguem engordando suas poupanças!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Meu Querido Diário

Horas insanas
Retornam
Param
Correm
Horas, doidivanas.
Assim seguem, dias e noites, infindos. Meu tempo passa de um modo estranho, tempo guardado na despensa do tempo; tempo, dono mofado de engrenagens sem encaixe, de relógios sem pulso, ponteiros ou paredes.
A explosão, a expulsar-me de mim, falha. Seus destroços inversos talham celas, muralhas de carne.
quanto meu grito não é ouvido?
Há quanto não me faço ouvir?
Pois que um frêmito varre minha garganta, a pulsão das lágrimas abraça o sorriso âncora. O abismo engole-me vorazmente e o pavio lasso já não incendeia essa pólvora velha, embebida em tons de um cinza inerte e inane.
Em meu retrato apenas uma estúpida cara, a face de um país sem hino, de um território sem mapa; um corpo com uma corcunda que já não esconde asas...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A pele dos medos

De arroubo mastigo teu sexo e me assombro.
Degusto teus gemidos
e falo bobagens
e grito
e choro.
Sussurro besteiras no teu ouvido
E te odeio por ir tão rápido!

Como dormir cedo, se a noite não marca hora?

Toca-me e me desvenda!
Calma! Passo lento. Cuida-me e me afaga!
Dê tudo o que puder!

Pra onde foi o soberbo?
Escondeu-se sob a roupa do otário?
Inconsolável fez-se inerme. Fez-se cego.

Teu olhar me despe e novamente estou nu
Foram-se as roupas do varal,
das gavetas,
dos cabides...

Mastiga minha pele... Sussurra... Passo lento!
Tenho medo de beijar, mas beijo.
Tenho medo de amar, mas amo...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pequenino

Existem dias em que acordo e abro os olhos devagar. Seguidamente isso acontece e, por mistério, inda me assusto, pois não mais brilha no espelho a face da criança, mas o reflexo barbado de um adulto.
Queria dormir pra sempre, fechar os olhos e sonhar eternamente em nunca mais voltar. Ficar assim, bem pequeno, pra correr a noite no sereno e no outro dia nem falar. Tomar banho de chuva e o picolé de uva do menino do apito! Ah! Como eu queria comer bala de banana, ralar a pele na calçada, consertar com prego as Havaianas e inventar mil namoradas e emagrecer como um palito.
Jogar bola na rua não pode mais, o carro pega, Deus me livre!
A dona grita pro vizinho, a fofoca corre solta, de boca em boca, de casa em casa, e do outro lado o gato virou tigre!
Um esfolado deu 10 pontos!
Um hematoma, pé quebrado!

Coisa incrível a época da gente.
Nostalgia dormir pra sempre.

(Que época é a nossa, senão esta, guardada no instante infinito do agora?)

O Arco-íris Preto e Branco

Sinto-me agora o mais incrédulo dos Deuses.
Inefável, mas ainda imponente. Berço solitário.
Gracioso como um arco-íris preto e branco...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

joão

Não!
Vão?
São?
Não!
estou cansado de ser joão!
(cão que come grama)
estou errado em ser joão!
errado em não?
errado em vão?
errado em ser?

joão, abusa!
joão, lambuza!
                                             joão, cara de espelho.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Prisma

Olha o espelho que te olha
Nem um olhar é igual
O espelho é um
O espelho é mil
O espelho na parede é um retrato mutante

Olhar passado Olhar cansado Olhar atraso

No espelho vário um espelho outro
No espelho porta o caminho torto
Uma máscara vista jamais se repete
Na frente do espelho-seio-colo-jaula
O abrigo de uma cara sem reprise

Veja teu mundo Vejo meu mundo

Um mesmo chão é sempre um chão volúvel

A cada passo A cada cuspe A cada queda
Muda o pó em lama
Muda o corpo em caco
Mudo o opaco e ofusca.

O chão-espelho imprime a imagem
Do rosto que raspa a terra!

Splash!

Quão pequena é a cara careta do estranho asceta?
Vida reta?
Vire a seta!
Vire a vida!