segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Conto da Contra-Utopia

O que será do erro se a borracha acabar?
E se a folha borrar-se de medo?
se a ponta do lápis quebrar?
se a mão do abstêmio tremer?
se o modelo raspar-se os cabelos?
se o artista dormir de tédio?
se a prece mudar o enredo?
se o zelo seduzir o diabo?
se a roupa cheirar a álcool?
se seu dono não parar de cheirar?
se o sangue purificar?
se o diamante perecer sem brilho?
se o grito do louco cessar?
E se o olho borrar de suor?
E se o olho borrar de pesar?

Como trepar de terno e gravata?
Como amar de pau mole?

O desassossego pegou no sono!
O cálido marcha,
de cabeça baixa,
a caminho do pálido!

Mas e se o crente, em desatino, gozar?
se o santo ajoelhar?
se o santo se igualar?
se a puta te olhar nos olhos?
E se você acreditar?
E se o bordel trocar orgias por divãs?
Quem pagará a conta?
Quem dará o troco,
se todas as pessoas ficarem sãs?

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