quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Auto-exame

Encontro-me sufocado
por um vazio grosseiro e distraído.
Um espelho revela-me por completo,
assim,
simplório e incomodamente exato,
todo morno e irrisório e sensato.
Meu riso barato insiste em brilhar,
tão branco e lustro,
que reluz à própria
teima do corpo em ser casto.

O sapato gasto do palhaço,
sem bolinha, lista ou laço,
oculta o pé,
que torce os dedos,
que mói as unhas,
tudo pra voltar a ser descalço
de passo torto e sem cadarço.

Tabuleiro pronto!
Lance armado!
Rei, Rainha, Torre, Bispo e Cavalo!
Todos peões e apenas peões viraram,
pra tombarem,
no raso tempo de um estalo.
E o peão, pobre homem, de mero cão
virou Rainha, não mais vassalo.
Não varre o chão!
Não corre atado!

Pula da frente do espelho que te olha
Afrouxa o laço!
Tira o sapato!

Quanto mais santo o corpo
Mais intenso o gozo!

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