segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

De que adianta?

De que adianta,

comprar prazer
e pagar pra ser o que não se é?

comprar amor,
quando não existe amor-próprio,
            e pagar pra poder ter fé?


De que adianta, 


foder com a vida,
e não satisfazer a quem se ama?

fitar os outros,
e não saber a cor dos próprios olhos?

De que adianta,

cuspir de nojo
e limpar as feridas com a própria saliva?

beber do cocho
e marcar a ferro seu gado?

fugir de casa,
quando o problema está no peito?

De que adianta?

ser cópia,
se, no final, o único é a única coisa que fica?

adiantar o relógio
e viver em um pleno e cego atraso?

sair perfumado
e ter um lar sujo e fétido?

ver o Luar
e não sentir o brilho da esposa?

ser moça
e gozar sempre sozinha?

tocar a superfície,
se o poder está âmago?

De que adianta?

cobrar do outro
e deitar despreocupado na lama?
e estar em dívida consigo mesmo?

ser chefe de restaurante
e deixar o arroz queimar em casa?

curar o peito,
se tudo à sua volta está doente?

De que adianta?

fingir-se de santo,
se o Éden te espera a cada esquina?

fingir-se de manco,
quando podes pular de salto?

fingir-se de herói,
se a heroína te dita as regras?

afogar-se na piscina,
se podes beber, de um gole, o mar?

De que adianta?

recostar,
se podes contestar?

deprimir,
se podes excitar?

De que adianta um mundo à sua frente,
                                    se há um buraco ao seu lado?

3 comentários:

  1. Amei este poema. Acho que porque me identifiquei com ele...

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  2. bom poema :) , ótima construção e o lance de 'verdade crua e deplorável' é bem apresentado entre as contradições..
    Trechos prediletos:

    "De que adianta,

    cuspir de nojo
    e limpar as feridas com a própria saliva?
    [...]
    De que adianta?

    recostar,
    se podes contestar?"

    Revolta, indignação, pessimismo e escracho ao orgulho humano. Foi o que senti ;}
    Continue postando poemas.. gostei pakas do teu blog ^^'
    :*

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